Terça-feira, 20 de Dezembro de 2005

Desarrumação ( Parte 2 )

O que perdura de nossos relacionamentos passados?
A verdade (crua e muitas vezes sórdida) das decepções, dor, zangas e questionamentos que filtramos após o fim da relação? Os lampejos de felicidade, momentos de ternura, aqueles instantes mágicos de cumplicidade que eternizam a lembrança dos amores mal resolvidos? A mentira que criamos para nos conformarmos e aceitar o fim? O politicamente correcto que repetimos aos conhecidos e testemunhas da relação que acabou? Rancor e amargura, ou a amizade, o desprendimento, o desejo de felicidade recíproca?
De cada final de relação fica o que queremos guardar na lembrança, o que a consciência rabisca no caderno de anotações do nosso próprio medo e dos rótulos que, mesmo sem intenção, criamos à medida que a convivência cria raízes e forma nossa personalidade. Guardamos o rascunho que imaginamos encapsular cada relacionamento passado, colocando etiquetas explicativas e reescrevendo o manual de conduta para relacionamentos futuros. Que de nada adianta, é verdade. A realidade de cada paixão que findou é distinta não apenas ao mundo de fora, mas tem versões diferentes em cada um dos envolvidos. Enquanto um prefere guardar as lições aprendidas nos erros de percurso, o outro se ocupa em achar culpados. Enquanto um faz do passado um espelho que dá formas ao amor-próprio, o outro prostra-se em frente à própria imagem com a íntima convicção de que nunca será feliz da maneira que merece. Não gostará do que vê reflectido porque a imagem que enxerga é a de uma pessoa descrente e ao mesmo tempo louca para se entregar ao primeiro cavalo encilhado ou à princesa adormecida mais próxima. E, fica, assim, numa eterna linha circular ao redor das projecções de amores-perfeitos e ideais, até descobrir que eles não existem.
Se podemos optar, porque não apimentar as desilusões com um pouco do aprendizado? As histórias que guardamos são como um turbilhão d'água que o tempo se encarrega de evaporar. O filete que fica, no final, é a sentença, a prova da importância daquela pessoa em nossa existência. Às vezes o filete se transfigura numa gostosa nostalgia, num ponto de referência onde afirmamos, sem pestanejar: "aquela pessoa fez diferença, foi especial". Noutras se resume numa lembrança destemperada e ruim que mostra amargura, inconformismo e culpa por um fracasso que ambos criaram e cujos factores não podem ser levados à tona porque o naufrágio está consumado e não há como resgatar fantasmas. Sim, há pessoas que não nos acrescentam muita coisa, de quem não carregamos nada além de tristeza e arrependimento. Mas a opção em dar um valor desmesurado a elas é nossa, para que carregarmos isso quando há outras que nos foram tão mais importantes? Somos mais substituíveis que imaginamos à lembrança daqueles que já nos foram imprescindíveis, então por que não usar da mesma estratégia em dar valor ao que se apresenta agora, às pessoas que se avizinham, sem deixar que nossos estereótipos atrapalhem o senso de julgamento?
Lidar com as próprias lembranças não significa mentir nem modificar factos, mas sim colocar as mãos na caixa de Pandora de cada relação e retirar delas o que nossa consciência sugere que carreguemos pela vida. Podemos ser acusados de sonhadores simplistas por carregar apenas lembranças boas e construtivas e atirar pela janela os momentos ruins, ou de eternos mal-amados se as lembranças ficam permeadas de pessimismo, descrença e culpa, num filtro que impede a visão de qualquer aspecto positivo das pessoas que passaram por nossas vidas. Já que amar sempre requer esperança, confiança e entrega das vulnerabilidades, nada mais justo que pegar de cada relação passada instantes de felicidade aos de decepção. Se o painel de vida que mostramos aos outros é do tamanho das nossas próprias expectativas, melhor que ele tenha a aparência da ternura e do agradecimento àqueles que ajudaram a construi-lo

publicado por fartodotrabalho às 14:38
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3 comentários:
De Mar a 21 de Dezembro de 2005 às 12:00
Fiquei algo confusa a ler o texto, porque fiquei com a sensação de já o ter lido,cabeça confusa a minha,deve ser das "festas".Aliás a tua forma de escrever é muito interessante, umas vezes muito emaranhada, outras, muito fluente e com estilo. Sabes isto é assim como defeito profissional, PSI,eu é que devo estar doida.Bjs Boas Festas.


De Marta a 21 de Dezembro de 2005 às 10:24
Apesar de seres um malandreco, gosto mto de ti, meu amigo. No fundo tens um bom coração e sempre pude contar contigo quando me senti o pior dos seres humanos. Assim como te dou nas orelhas quando fazes asneiras, tb não posso deixar de agradecer as palavras amigas e o ombro amigo sempre q estou mal.
Nste momento o q posso dizer é q gostava de dar uma licção ao menino Carlos q nos enganou a todos com aquela postura de menino bonito e da mamã. É mto triste, e o sofrimento a q me está a expor seria absolutamente desnecessário se soubesse ter sido homem e não um puto inconsequente e mentiroso.
Brunito, és um amigo!


De oteudoceolhar a 20 de Dezembro de 2005 às 16:50
Bruno ** Cabe a nós construi-lo a cada dia que passa. É tão facil falar não é? Eu acredito que a culpa nunca morre solteira. Posso dizer que já passei pela situação da "culpa"...mas estou como tu dizes arrumo tudo, senão não vou conseguir seguir em frente. Beijinho n´oteudoceolhar (já te disse que és um querido :) gosto de te ler ***)


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